Luz, câmera e ficção

Mesmo eu tratando este site como pessoal, e para informações sobre minha vida, resolvi transcrever artigos que considero de interesse Nacional, para que possamos entender melhor tudo o que nos cerca.

por Rodrigo Corrêa de Barros – rodrigo@equipecross.com.br

A profissão de marqueteiro – ou marquetólogo para aqueles que escrevem com a Mont Blanc – é muito citada neste momento de corrida eleitoral como responsável por transformar aquela gordinha chata e feia, de sotaque carregado, fala confusa e olhar cansado, em uma mulher fluente, uma usina de ideias revolucionárias e positivas, de visão segura e fixada no futuro, rosto confiável, sorriso branco da cor da neve das estepes e levemente acima do peso.

Pois é. O marketing faz isso pelas pessoas que desejam ou precisam de um novo layout e alguns de nós, de fato, se submetem ao papel de manipuladores dos bonecos no circo de mendacidades que é a política, claro, em troca de alguns mensalões. E o brasileiro, um dos mais sugestionáveis povos do mundo – sensível e carente de ídolos – acaba por se entregar de corpo, alma e cartão de crédito à magia sedutora e aos artifícios que o marketing cria com táticas detalhadamente estudadas para transformar pessoas em mitos, atletas em heróis, atores em modelos de comportamento e, claro, políticos em seres quase humanos.

Mas a magia da profissão termina por aí. O marqueteiro, pelo menos o bom, nada mais é do que um vendedor metido à besta, que tem à sua disposição recursos e ferramentas elaboradas para criar e propagar conceitos inovadores para produtos e serviços. E só, sem fantasia, sem ficção.

Quando em 1996 defini assim nossa profissão em uma escola paulistana de marketing, fui fuzilado por um pelotão de jovens como eu, mas que ao contrário de mim, ainda alimentavam ilusões sobre a nobre carreira, enganados mais pelos louros do rótulo profissional do que seduzidos pelos dividendos que a influência nos pode conferir no destino da economia do país, o que não é pouco.

Às vésperas de um novo tempo, o Brasil vive um cenário marcado pela imaturidade de consumo e assume-se promíscuo na relação do homem comum com o mercado. Nosso modelo ignora a qualidade fabril, o equilíbrio da produção e o conceito agregado que deve haver nos bons produtos. Para piorar, já se começa a aferir em sondagens confiáveis que o brasileiro não apenas está engordando – o que é sinal comprovado do descontrole no consumo – como está comprando mais, e comprando aquilo de que não precisa.

O consumo faz pulsar o coração da economia moderna, é obvio, mas não se conta ao consumidor que ele é o glóbulo deste processo e que a voracidade na compra de tudo, a toda hora, leva à especulação – que é o câncer em metástase para um mercado sadio – e também à saturação, que causa o enfarte do miocárdio ou do cardio mio, dependendo do lado do balcão que você está.

Ainda nos confundimos entre o luxo e o requinte, achamos que tudo que é dourado tem mais valor e isso ocorre justamente quando o mundo lá fora já se prepara para sair da crise diretamente para um novo momento da história econômica moderna, criando, planejando e inovando no uso de materiais, desenhos, instrumentação construtiva e conceitos de mercado.

O que vale mais neste universo de consumo é o conceito que se dá aos produtos contemporâneos. Por exemplo: uma caneta em alumínio limpo é hoje mais valorizada que as antiquadas feitas em resina negra, pois é mais barata, mais bonita e atual, dura mais e é mais prática, combinando tanto com o terno quanto com a bermuda, escreve com empunhadura mais leve e grifa com tinta reciclada.
Nos Estados Unidos e na Europa os incorporadores imobiliários já incluíram em seu plano de negócios os cemitérios ecológicos, os prédios construídos a partir de contêineres, pedaços de carros e geladeiras sucateadas e as pousadas de luxo encravadas no fundo do mar cristalino do Caribe, decoradas com móveis do século passado, recolhidos do lixo e devidamente restaurados.

O marqueteiro está no centro desta revolução, avaliando como deverá ser esse imprevisível novo mundo e revendo os conceitos que são a expressão desta que é a maior mudança da história humana moderna.

Os homens que virão, desejarão a novidade mais do que tudo e viverão por ela. Nascerão para explorar o mundo inteiro e sair dele se possível… Para essa nova geração, ganhar dinheiro será algo natural e gastá-lo bem será, possivelmente, uma equilibrada combinação de bom senso, tecnologia, design e do uso de recursos industriais disponíveis.

Os planejadores de mercado devem abdicar da luz, fugir das câmeras e transformar a ficção em ação, revendo suas expressões viciadas para enxergar que nossa profissão está chegando em um tempo no qual passaremos a tratar os consumidores, esses sim, como seres verdadeiramente humanos.

* Rodrigo Corrêa de Barros é publicitário e planejador do mercado imobiliário, diretor da Cross Marketing.


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