Hotel mais famoso de Havana já abrigou uma cúpula da máfia e hospedou meia Hollywood

A máfia americana dos anos 1940 realizou ali uma de suas mais importantes cúpulas: a que inspirou a reunião de “O Chefão 2”. Ava Gardner e Frank Sinatra o escolheram para sua lua-de-mel, prelúdio de um casamento atormentado. Em um de seus salões tomou posse o presidente mais breve da história de Cuba, Manuel Márquez Sterling: seis horas no cargo. E os cantores Juanes e Miguel Bosé explodiram de raiva em um de seus corredores devido às pressões e vigilância a que foram submetidos pela segurança do regime antes do Concerto pela Paz em 2009.

O Hotel Nacional é o maior anfitrião de Havana. Meia Hollywood e chefes de Estado de todo o mundo se hospedaram em seus quartos. Também alguns ídolos e alguns criminosos. Pessoas destinadas ao céu, como Gary Cooper, Buster Keaton ou Johnny Weissmüller, e personagens procedentes do inferno, como Lucky Luciano, Santo Trafficante e Meyer Lansky.

É verdade que todos esses nomes aparecem juntos em um dos painéis fotográficos de hóspedes insignes pendurados em seu Salão da Fama. Na Cuba de nossos dias, o estabelecimento é uma estranha e monumental homenagem ao inimigo no sentido mais amplo do termo: o inimigo pessoal que Fidel Castro teve em Lansky ou Trafficante, este último envolvido na tentativa de assassinar o líder revolucionário que a CIA planejou com apoio da Cosa Nostra; e homenagem também ao mais destacado do inimigo intangível que, para a revolução, é o capitalismo, fonte primordial de gulosas divisas através do turismo.

O Nacional é testemunha de pedra de negociações cruciais, feitos históricos e conflitos de toda índole. Em 1933, três anos depois de sua inauguração, mais de 300 oficiais que haviam servido com o recém-deposto ditador Gerardo Machado se entrincheiraram no hotel. Sob o comando do então coronel Fulgencio Batista, que acabava de tomar o controle do exército, forças de artilharia e inclusive navios da armada atacaram a tiros de canhão os amotinados até conseguir sua rendição. Houve dezenas de baixas de ambos os lados. Os soldados de Batista massacraram vários militares já rendidos e sem armas nos jardins do hotel. O edifício ficou como uma peneira. A reparação durou meses.

Foi no ano seguinte, em 17 de janeiro de 1934, que o Nacional acolheu o juramento de Márquez Sterling como presidente. O ato se realizou às 6:10 da madrugada, segundo as atas oficiais. O objetivo era preencher um vazio de poder naqueles momentos convulsos e de confusão nacional. Por isso Sterling se demitiu às 12 horas desse mesmo dia. O quarto onde pronunciou o juramento, o 412, foi o mesmo em que cinco meses antes havia sido nomeado chefe de Estado Carlos Manuel de Céspedes y Quesada, filho do “pai da pátria cubana”.

Mas o conciliábulo mais mórbido dentre os realizados no Nacional foi aquele que, em dezembro de 1946, reuniu ali a cúpula da máfia americana. Os “capos”, convocados por Lucky Luciano, fecharam o hotel durante uma semana de debates, banquetes e farras. Com a ajuda de Lansky e Trafficante, Luciano tentava reforçar seu poder contra as tentativas de golpe de Vito Genovese.

Entre os artistas que animaram a festa esteve Frank Sinatra. “A Voz” voltou ao hotel cinco anos depois para celebrar sua união com Ava Gardner (novembro de 1951). Conta-se que o casal protagonizou ali uma de suas primeiras brigas. O turbulento matrimônio, salpicado pelas constantes querelas e até várias tentativas de suicídio de Sinatra, duraria seis anos.

Em 1952 o hotel aplicou as normas racistas da época para rejeitar Josephine Baker como hóspede. Embora já tivesse passado por isso outras vezes, a bailarina e cantora se encheram de raiva e reuniram vários cubanos de cor e um advogado para dar fé do acontecido. Em 2000, o governo organizou no próprio hotel um desagravo póstumo à vedete.

Menos cortês mostrou-se o regime com alguns dos cantores que nove anos depois, em setembro de 2009, participaram do Concerto pela Paz de Havana. O colombiano Juanes e o espanhol Miguel Bosé, promotores do evento, estiveram prestes a atirar a toalha por causa das exigências, limitações e constante vigilância que os serviços de segurança lhes impuseram. Seus amargos lamentos ecoaram no Hotel Nacional. Mas afinal não se deixaram intimidar: o concerto se realizou e foi um sucesso.

 

 

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